quarta-feira, abril 20, 2011

Acerca de ser português.



Hoje almocei com amigos e com amigos de amigos. Dizia um “amigo de um amigo”, que tinha entrado no eléctrico na Praça do Comércio, coisa que não fazia há anos, para ir passear a Belém. Tendo reparado que tinha de pagar 2,5€ de bilhete, em moedas, e não os tendo consigo, tentou falar com o motorista, que não lhe ligou. Continuou no seu passeio até Belém, sem pagar.
Na volta, não trocou dinheiro e fez o mesmo… não pagou. No fim, com o dinheiro “poupado” foi beber uma cerveja e comer uns caracóis…

No mesmo almoço, dizia um amigo meu que só comprava fruta portuguesa.

O exemplo do primeiro é um exemplo de esperteza saloia que grassa entre nós desde os descobrimentos… alguém fará umas caravelas que nos levarão de Belém ao Brasil, chegamos lá gamamos umas coisas e voltamos. Depois vamos beber umas cervejas com tremoços…

O segundo exemplo, por muito que o respeite, é também típico nosso. A preocupação em comprar o que é nosso é, não só legítima, como desejável. Mas o engraçado é que, no geral, só nos lembramos de comprar o que é nosso quando falamos de frutas e de legumes… talvez porque o resto esteja mais dissimulado em etiquetas com números estranhos…

Mas a verdade é que para comprarmos um produto de base tecnológica (desde um Mercedes a uma máquina de café estrangeira, com as respectivas pastilhas – o que, em casa de 2 pessoas que bebam, cada uma, 2 cafés por dia leva ao consumo de 500€ por ano), precisamos de vender toneladas de maçãs… 100 toneladas, no caso de um Mercedes baratinho…

Na compra de um produto interferem muitos factores. Entre eles estão a expectativa que colocamos na sua qualidade, a sensação de bem-estar que – esperamos - irá proporcionar aos nossos sentidos e, para quem liga a isso, no dizer a outros que comprámos esta marca (eventualmente na moda, se somos de modas, fora da moda se somos contra as modas) e não qualquer outra.

Neste momento, a compra de um produto português e não de um estrangeiro, poderá fazer toda a diferença ao futuro do país e, consequentemente, ao nosso. A compra de computadores Tsunami ou Insys, na vez de HP ou Compaq, a utilização das operadoras TMN ou Optimus na vez da Vodafone, dos bancos Caixa ou BCP, ou BPI ou BES… na vez de Santander ou Barclays… e por aí fora…

Não estou a criticar ninguém, que também não gosto dos computadores Insys. Estou só a desabafar… a tentar arranjar uma solução e, se ela não resultar, a pensar como raio é que me meto a mim daqui para fora…

15 comentários:

Fresco_e_Fofo disse...

Pois eu também embirro com a esperteza saloia de alguns portugueses. O problema é que muitos deles são também os produtores dos bens que teríamos muito gosto em comprar, por serem "nossos", mas que por serem produto da esperteza saloia, ficam quase sempre aquém do que esperávamos deles. Tirando raras excepções, os produtos e serviços portugueses, não só são de péssima qualidade, como nos são impingidos como sendo topo de gama, o que acaba por dar má imagem àqueles que são verdadeiramente bons.
No caso dos serviços, tive uma muito má experiência com a Zon, que me vendia um serviço de má qualidade e péssima assistência, o que me levou, ao fim de seis meses de reclamações, a mudar para a Vodafone ADSL. Em dois anos tive dois problemas relacionados com a linha (que é propriedade da PT, outra portuguesa lool), prontamente resolvida pela Vodafone, enquanto que a Zon sempre se desculpou com a saturação do cabo. Saturação que era da sua responsabilidade mas que, nem por isso, mostrou intenção de resolver.
Falta profissionalismo e honestidade aos "empresários" portugueses. Não passam de uns chicos espertos especializados em sacar subsídios ao Estado que tanto criticam. Consideram-se os motores da economia e nem têm discernimento para compreender que com esse auto-reconhecimento, no estado em que deixaram a economia, não passam de "motores gripados".
Se essa gente ganhasse vergonha e fizessem por merecer o respeito do consumidor, talvez não estivéssemos de mão estendida para o FMI, para salvar bancos falidos.

Rui Caldeira disse...

isso é tudo muito bonito mas, a nível de gajas, será que devemos apostar no produto nacional ou devemos enveredar por uma boa mama estrangeira ? Ou podemos optar por ambos, e ao mesmo tempo de preferência ?


Grande abraço

António Branco disse...

Olá Fresco!
Por acaso não tenho razão de queixa da Zon, da PT ou da TMN. Para a TMN teria uma reclamação, que comprei um pc com uma pen de banda larga que não vale nada. Mas o problema está no Pc, um Insys, fabricado em Portugal, não na banda larga...
Mas há que procurar os melhores produtos e serviços, pois se não os procurarmos nós, ninguém os procurará. E não sendo desculpa, lá fora há muita chico espertice também... olha a Air France, que se tornou numa das piores companhias aéreas do mundo, ou a Amazon que andou a enganar clientes, ou muitos dos bancos americanos, que vendiam aos clientes produtos já falidos, ou algumas companhias farmacêuticas estrangeiras, que vendem gato por lebre, convencendo todos que estão a vender lebre...
Temos de procurar os melhores produtos de entre os que "temos" e premiá-los com a nossa fidelidade...
Há mesmo um estudo que aponta para a saída rápida da crise se cada português comprasse 100€ de produtos portugueses por mês...

António Branco disse...

Olá Rui!
Acho que podemos apostar nos dois. Para quem ainda se aguente, pode ser em simultâneo... se a mulher deixar :P

Isa disse...

Vou fazer de conta que não li o que o Rui Caldeira.

António, grande texto (ou desabafo) parabéns. E não debandes pá, não faças isso que este País precisa é de gente como tu. Não me decepciones, tu vê lá isso, que não sei se qgunto mais desilusões!

ando fraquinha fraquinha, sabes lá ..

António Branco disse...

Olá Isa!
O Rui viciou-se, coitado...

Eu não debando... mas vontade não me falta...
Quanto ao aguentares desilusões, só as aguentamos quando nos iludimos. Acho que não vale a pena...
Fraquinha? Não pode ser! Então e a empresa? E o nosso partido? Empresas e partidos arrebitam!

Lu! disse...

Será que ainda existe solução?! :(

Isa disse...

Tudo dentro dos planos, António, é só o tempo de me recuperar das ultimas movimentações. Tou só fraquinha, não estou desmotivada!:)

Não nos iludirmos era tá bom ... um dia ainda hei-de aprender comé que isso se faz pá!

nesta vida, dava jeito.

António Branco disse...

Olá Lu!
Há sempre soluções... como dizia um amigo meu, "Tudo se resolve". E é verdade. Porque não há alternativa.

António Branco disse...

Isa, se eu puder fazer algo para te fazer mais forte diz :)

A ilusão é uma coisa boa. Mas quando vem, espetamos-lhe um alfinete a dizer "ilusão" e deixamo-la ali. Se provar não o ser, é bom. Se provar sê-lo, também é bom. Mostra que tínhamos razão ;)

Isa disse...

Já ajudas António, já ajudas ...:)


Gracias!

Manuel Santos Marques disse...

Parece-me que ser bom português, agora, seria jejuar com os amigos e não ir almoçar com eles. E depois entregar o dinheiro assim poupado na agência bancária mais próxima... anonimamente, claro.

António Branco disse...

Olá Manuel!
Na verdade comemos demais. Todos... comemos carne demais, comemos batatas demais, comemos arroz demais, comemos esparguete demais, bebemos vinho demais, e leite demais...
Comemos vegetais a menos...

... e com a vontade de comer muito, TUDO, vem a de comermos melhor do que o vizinho do lado... beber melhor vinho... e depois... usar melhor carro, ter melhor casa...

Mas para falar verdade... não fui eu quem criou tudo isso, nem sou a favor de tal atitude... mas se há uma coisa de que ainda gosto (e já não são muitas) é a de estar com amigos. E, na verdade, mesmo quando esses amigos levam amigos idiotas, estar com eles é, para mim, mais importante que aquilo que eu possa comer ou beber com eles, que é - para mim - completamente secundário... (aliás, para mim é secundário comer - só espero que sejam inventadas umas quaisquer pastilhas que substituam esse vício).

Assim... com jejum ou com enfartamento... eu vou continuar a almoçar com amigos de que goste, enquanto puder pagar o almoço... ou quando o jejum fôr possível, na falta de capacidade económica...

Por outro lado, eu não tenho nada a ver com bancos. Defendo-me deles como qualquer cidadão o faz ou deveria fazer, tentando pagar juros mais baixos e receber juros mais altos...

Por outro lado ainda... eu já não me sinto português, mas cidadão do Cosmos... qualquer sítio poderá ser bom para ir, desde que aí me tratem bem. Em troca, têm a minha postura de cumprir as leis todas, e a de ser voluntário se me tratarem bem, o que não conseguem se não tratarem...

Finalmente, poderás estar comigo e com os meus amigos no próximo almoço (temos um ou dois por mês). Pagar-te-ei este primeiro almoço e prometo que logo na entrada te ofereço um pudim flã, para que comeces a ver a vida um pouco mais doce, que estás pior do que eu nesse aspecto.
Mas não poderás dar exemplos semelhantes aos da viagem de eléctrico acima, que tento prezar-me de ter amigos decentes...
Um abraço!

Pusinko disse...

Muito bom para reflectir.
O país precisa de união, respeito pelo que é dos outros (essa trapaçeirice tão típica) e adaptação à realidade, que queiramos ou não, é dura. Muita gente não pode manter o nível a que estava habituado e, em vez de das modas e do fazer de conta e ter de espalhar aos 4 ventos o que faz e consome de fora... para faltar muito dentro de casa.

Apostar no que é local em certos artigos é uma opção inteligente e realista no pequeno comércio. Nas grandes superfícies, há preços mais baixos em muitos produtos estrangeiros que, não sendo tão bons, são mais apelativos.

Estou fora de Portugal. Mas tento comprar dos locais... quando é possível. Em termos ambientais é uma opção positiva, também.

António Branco disse...

Olá Pusinko!
O respeito leva ao cresicimento. Pessoal e social. Porque sem respeito ninguém se une. Ninguém se associa. Por medo.
Façamos o que podemos para melhorar isto, usando a cabeça...